“Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas, os nossos homens de idéias eram, em geral, puros homens de palavras e livros; não saiam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações. Tudo assim conspirava para a fabricação de uma realidade artificiosa e livresca, onde nossa vida verdadeira morria asfixiada.”
“O amor bizantino dos livros pareceu, muitas vezes, penhor de sabedoria e indicio de superioridade mental, assim como o anel de grau ou a carta de bacharel. É digno de nota – diga-se de passagem – o valor exagerado que damos a esses símbolos concretos; dir-se-ia que as idéias não nos seriam acessíveis sem uma intervenção assídua do corpóreo e do sensível.”
Sergio Buarque de Holanda. “Raízes do Brasil”. IN Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2002. pp. 1064-1065
O desconforto das idéias roubadas, a desavença perpétua – quase uma equação dialética – entre as periferias e a metrópole – o desencanto algo melancólico de sermos mero ramo da árvore européia já vem de longe. Um desconforto que parece ter nascido, para nós da América portuguesa e espanhola, quando nos deparamos com o difícil momento da liberdade política e espiritual, quando nos demos conta de não sermos europeus em exílio, e sim almas independentes, basicamente exploradas por nossos antigos e condescendentes parceiros europeus. A modulação entre “nós” brasileiros, e “eles” os estrangeiros, transita entre a mais profunda admiração e o mais completo repúdio, aliamo-nos aos princípios ocidentais da fraternidade, igualdade e liberdade sem a transição da desgraça à justiça social, do fisiologismo à maturidade política e do fascismo ao pensamento livre e investigativo. As duas moedas ainda circulam. O desconforto do caráter postiço de nossas origens caminha lado a lado com a satisfação em sermos periféricos, ou deliciosamente antropofágicos, como diria Oswald de Andrade, a quem a equação passou pelas mãos e concretizou-se em proposta estética, cujos frutos presenciamos até hoje, dos palcos do teatro oficina aos infantis anúncios da televisão. A modulação ainda se apresenta. A radicalização do discurso, assumindo a condição de periférico, e não provinciano, talvez seja a lição a ser anotada.
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Oswald foi dos primeiros no modernismo a reinterpretar este caráter postiço da dissonância entre padrões burgueses e realidade derivada do patriarcado rural.[1] E mais, com a proposta de valorização do primitivo, do local em sintonia aglutinadora com a cultura estrangeira reanimou o já combalido quadro cultural do velho mundo e colocou-se entre os modernos através da paródia e do carnaval. Oswald, como um intelectual em exílio, realinha as formas de seus antecessores parodiando-os. Como todo o exilado, faz contrabando da cultura estrangeira e a civiliza através do nosso primitivo disparate cultural, num processo moderno de destruição e reconstrução.

Oswald, comemos de seu fino biscoito
Podemos pensar em Oswald e nos modernistas como pensadores que, vivendo às margens do sistema capitalista, possuem a posição privilegiada de duas perspectivas modernas: a do centro do capital e a da periferia[2]. Intelectuais em exílio.
A reflexão que proponho tem como mote a palavra exílio. Concretamente, ao pensarmos em exílio, pensamos naquele que está longe, voluntariamente ou não, de seu lugar de origem. O exílio pode ser também uma forma de punição àquele que de alguma forma não se integra ao contexto social ou político de um estado opressor, esta seria uma acepção moderna do termo. Durante os chamados anos de chumbo, intelectuais viram-se privados de seus direitos civis e, sob a possibilidade de prisão e tortura, exilaram-se. É talvez o mais sofisticado dos castigos, priva o individuo de suas raízes, o coloca de encontro a outras perspectivas que, em muitos casos, são pesarosas. Durante os primeiros séculos de colonização portuguesa o Brasil foi o destino dos degredados inquisitoriais, vítimas do Santo ofício e do autoritarismo religioso. Neste sentido o exílio pune sobretudo o pensar diferente, ou a ameaça ideológica. Em regimes totalitários o exílio transporta os indesejados para fora de uma utopia inventada, utopia esta em que o indivíduo destoa, como um corpo estranho, da ordem de idéias estabelecidas. Seja ela de esquerda ou direita, possibilita muitas vezes o olhar enviesado do intelectual sobre a sua origem. O olhar a margem traz o beneficio do deslocamento da perspectiva. A crítica feita à margem torna-se radicalmente mais lúcida, aguda e melancólica.

O exílio não é necessariamente privilégio daqueles cujo pensamento ou comportamento destoe do status quo estabelecido. Há aqueles que se exilam como que atraídos pela modernidade, pelos novos valores e pela surrada ilusão de ascensão social. São estes exilados que alimentam o sonho moderno de movimento e avanço que está presente nas grandes cidades. O campo torna-se objeto de culto, de uma vida feliz, mas impossível de vivenciá-la depois dos sobressaltos e fascínio da grande metrópole.
Julien Sorel, personagem de O Vermelho e o Negro, de Stendhal é um dos mais emblemáticos neste sentido, almeja o mundo parisiense como um destino a ser conquistado, no entanto espelha-se no exemplo de Napoleão, herói de um tempo romântico já morto. A tensão se dá entre dois mundos irreconciliáveis. O velho mundo rural e o novo mundo da metrópole.
Esta tensão também esta presente em Rastignac, personagem de O pai Goriot, de Balzac. No entanto, o exilado Rastignac persevera em suas lições, obliqua-se diante das grandes farsas do dinheiro e no fim, depois de anos de aprendizagem, enfrenta de frente a terrível cidade que é Paris: Agora é entre nós dois. Sussurra um transformado Rastignac, já configurado como o primeiro herói moderno, no dizer de Baudelaire.
Para Edward Said, o exílio deve ser visto pelo intelectual como metáfora a uma liberdade de pensamento e ação sem precedentes, o intelectual em situação de exílio, transcende o comodismo ideológico da academia do tapinha nas costas. Assumindo uma posição à margem, a visão autônoma seria o antídoto ao comodismo do pensador e artista:
“A condição de marginalidade, que pode parecer irresponsável e impertinente, nos liberta da obrigação de agir sempre com cautela, com medo de virar tudo de cabeça para baixo, preocupados em não inquietar os colegas, membros da mesma corporação.”[3]

Said, reflexões sobre o exilio
A posição defendida por Said vai ao encontro de algumas das reflexões de Sartre. Sobretudo quanto a saída crítica do escritor dentro do contexto capitalista, para Sartre o escritor não se posiciona de modo crítico em relação à burguesia, pois está atrelado a ela. É em vão a análise se o Autor compactua com o conservadorismo burguês. Para a crítica é necessário o exílio, ou o afastar-se do objeto. Como o Autor não sabe, ou não quer este distanciamento, ele aprofunda-se em uma “solidão”, que cinicamente o impele a escrever “para ele mesmo”.[4]
As posições de Sartre tratam de um utilitarismo na arte que foge do assunto deste texto. O interessante a ressaltar é que as propostas tanto de Said quanto de Sartre se igualam diante do beco escuro do comodismo intelectual: o olhar à margem, o exílio.
O exílio posto como posicionamento intelectual não o isenta de certas responsabilidades, antes impõe um comportamento ético que desafia os mais engajados. Não há diante da premissa de exílio a liberdade irresponsável, e sim coerência de idéias e autonomia de espírito:
“Entretanto, penso que, para ser tão marginal e indomado como alguém que se encontra de fato no exílio, o intelectual deve ser receptivo ao viajante e não ao potentado, ao provisório e arriscado e não ao habitual, à inovação e à experiência e não ao status quo autoritariamente estabelecido. O intelectual que encarna a condição de exilado não responde à lógica do convencional, e sim ao risco da ousadia, à representação da mudança, ao movimento sem interrupção”.[5]
Como o anjo caído do antigo testamento, o exilado rompe com o que aparentemente é eterno e inquieta-se, questiona-se constantemente em seu privilegiado farol.
O exilado tem em vista o desacerto e a tentativa. O correr o risco é a base para a representação da realidade e a relativização histórica. O local privilegiado da periferia o põe em sintonia com outros elementos que o centro não poderia, e não quer dispor. Em alguns casos não há outro modo de agir a não ser a constante reorganização de idéias e o amargo fardo do pessimismo.
José de Alencar foi dos primeiros a exercer a visão de exilado – não sou um Europeu – muito bem poderia nos dizer ele, na concepção do romance no Brasil. As grandes questões do romantismo foram mastigadas por ele e reorganizadas – num resultado ainda tímido, deve-se ressaltar – mas de grande importância para autores que viriam, como Machado de Assis[6]. Alencar foi o primeiro artista da modernidade no Brasil, vítima e fomentador das grandes engrenagens que colaboraram no desenvolvimento do sistema literário brasileiro, teve consciência da necessidade de uma linguagem literária própria que desse conta das regulares produções intelectuais do período. Abraçou em sua obra territórios e crenças, criou mitos e testemunhos de uma nação ainda ingênua, com seus pequenos comerciantes e magistrados, onde o cabedal de doutor, forjado na maioria das vezes, deu o tom das desreguladas ambições nacionais.
Seu maior romance, Senhora (1875), é exemplo de romance que tenta, dentro das enormes contradições entre a nossa modernidade e aquela que lhe serviu de modelo, dar conta de certo desconforto de uma elite paternalista que se vê num acelerado processo de desagregação. A coisificação das relações sociais extrapola o provincianismo e exigiria de Alencar certa radicalidade de que ele não foi capaz, no entanto abriu um temário inédito no romance Brasileiro e possibilitou a exploração de outros temas para outro exilado. Machado de Assis.

[1] SCHWARZ, Roberto. “Nacional por subtração”. IN Que horas são? São Paulo, Companhia das letras, 2006. pp. 37
[2] O fenômeno moderno manifesta-se de diferentes formas em diferentes lugares. Há uma dinâmica que congrega todos os elementos de industrialização, êxodo rural e profunda modificação social que é inerente a todos, mas as diferentes condições culturais, sociais e políticas possibilitam a identificação de mais de uma “modernidade”. Cito Partha Chatterjee: “Muitos dos exemplos e explicações de Rajnarayan parecerão risíveis para nós. Mas não há nada de risível de seu projeto principal, que é provar que não pode haver apenas uma modernidade independente de geografia, tempo, meio ambiente ou condições sociais. As formas da modernidade terão de variar entre diferentes países, dependendo de circunstâncias específicas e de práticas sociais.” CHATTERJEE, Patha. Colonialismo, modernidade e política. Salvador, Fabrica de idéias, 2004. pp. 51.
[3] SAID, Edward W. Representações do Intelectual. São Paulo, Companhia das letras, 2005. pp. 70
[4] SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? São Paulo, Editora Ática, 2004. pp. 95.
[5] SAID, Edward W. Idem, Ibidem.
[6] Para Roberto Schwarz, A obra de Alencar é “uma das minas da literatura brasileira, até hoje, e embora não pareça, tem continuidades no Modernismo. De Iracema, alguma coisa veio até Macunaíma: as andanças que entrelaçam as aventuras, o corpo geográfico do país, a matéria mitológica, a toponímia índia e a História Branca.” A idéia de continuidade e acumulo na literatura brasileira vem sendo tratada de maneira convincente e bastante interessante em Antonio Candido e Roberto Schwarz. Veja-se em SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas.Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo, Editora 34, 2000. e CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro, Editora Ouro sobre Azul, 2006.







