Dois exílios e uma digressão – Primeiro exílio:não europeus

Postado em Uncategorized em 11/08/2009 por Rogério Fernandes

“Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas, os nossos homens de idéias eram, em geral, puros homens de palavras e livros; não saiam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações. Tudo assim conspirava para a fabricação de uma realidade artificiosa e livresca, onde nossa vida verdadeira morria asfixiada.”

“O amor bizantino dos livros pareceu, muitas vezes, penhor de sabedoria e indicio de superioridade mental, assim como o anel de grau ou a carta de bacharel. É digno de nota – diga-se de passagem – o valor exagerado que damos a esses símbolos concretos; dir-se-ia que as idéias não nos seriam acessíveis sem uma intervenção assídua do corpóreo e do sensível.”

Sergio Buarque de Holanda. “Raízes do Brasil”. IN Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2002. pp. 1064-1065

O desconforto das idéias roubadas, a desavença perpétua – quase uma equação dialética – entre as periferias e a metrópole – o desencanto algo melancólico de sermos mero ramo da árvore européia já vem de longe. Um desconforto que parece ter nascido, para nós da América portuguesa e espanhola, quando nos deparamos com o difícil momento da liberdade política e espiritual, quando nos demos conta de não sermos europeus em exílio, e sim almas independentes, basicamente exploradas por nossos antigos e condescendentes parceiros europeus. A modulação entre “nós” brasileiros, e “eles” os estrangeiros, transita entre a mais profunda admiração e o mais completo repúdio, aliamo-nos aos princípios ocidentais da fraternidade, igualdade e liberdade sem a transição da desgraça à justiça social, do fisiologismo à maturidade política e do fascismo ao pensamento livre e investigativo. As duas moedas ainda circulam. O desconforto do caráter postiço de nossas origens caminha lado a lado com a satisfação em sermos periféricos, ou deliciosamente antropofágicos, como diria Oswald de Andrade, a quem a equação passou pelas mãos e concretizou-se em proposta estética, cujos frutos presenciamos até hoje, dos palcos do teatro oficina aos infantis anúncios da televisão. A modulação ainda se apresenta. A radicalização do discurso, assumindo a condição de periférico, e não provinciano, talvez seja a lição a ser anotada.

***

Oswald foi dos primeiros no modernismo a reinterpretar este caráter postiço da dissonância entre padrões burgueses e realidade derivada do patriarcado rural.[1] E mais, com a proposta de valorização do primitivo, do local em sintonia aglutinadora com a cultura estrangeira reanimou o já combalido quadro cultural do velho mundo e colocou-se entre os modernos através da paródia e do carnaval. Oswald, como um intelectual em exílio, realinha as formas de seus antecessores parodiando-os. Como todo o exilado, faz contrabando da cultura estrangeira e a civiliza através do nosso primitivo disparate cultural, num processo moderno de destruição e reconstrução.

Oswald, comemos de seu fino biscoito

Oswald, comemos de seu fino biscoito

Podemos pensar em Oswald e nos modernistas como pensadores que, vivendo às margens do sistema capitalista, possuem a posição privilegiada de duas perspectivas modernas: a do centro do capital e a da periferia[2]. Intelectuais em exílio.

A reflexão que proponho tem como mote a palavra exílio. Concretamente, ao pensarmos em exílio, pensamos naquele que está longe, voluntariamente ou não, de seu lugar de origem. O exílio pode ser também uma forma de punição àquele que de alguma forma não se integra ao contexto social ou político de um estado opressor, esta seria uma acepção moderna do termo. Durante os chamados anos de chumbo, intelectuais viram-se privados de seus direitos civis e, sob a possibilidade de prisão e tortura, exilaram-se.  É talvez o mais sofisticado dos castigos, priva o individuo de suas raízes, o coloca de encontro a outras perspectivas que, em muitos casos, são pesarosas. Durante os primeiros séculos de colonização portuguesa o Brasil foi o destino dos degredados inquisitoriais, vítimas do Santo ofício e do autoritarismo religioso. Neste sentido o exílio pune sobretudo o pensar diferente, ou a ameaça ideológica. Em regimes totalitários o exílio transporta os indesejados para fora de uma utopia inventada, utopia esta em que o indivíduo destoa, como um corpo estranho, da ordem de idéias estabelecidas. Seja ela de esquerda ou direita, possibilita muitas vezes o olhar enviesado do intelectual sobre a sua origem. O olhar a margem traz o beneficio do deslocamento da perspectiva. A crítica feita à margem torna-se radicalmente mais lúcida, aguda e melancólica.

melancolia

O exílio não é necessariamente privilégio daqueles cujo pensamento ou comportamento destoe do status quo estabelecido. Há aqueles que se exilam como que atraídos pela modernidade, pelos novos valores e pela surrada ilusão de ascensão social. São estes exilados que alimentam o sonho moderno de movimento e avanço que está presente nas grandes cidades. O campo torna-se objeto de culto, de uma vida feliz, mas impossível de vivenciá-la depois dos sobressaltos e fascínio da grande metrópole.

Julien Sorel, personagem de O Vermelho e o Negro, de Stendhal é um dos mais emblemáticos neste sentido, almeja o mundo parisiense como um destino a ser conquistado, no entanto espelha-se no exemplo de Napoleão, herói de um tempo romântico já morto. A tensão se dá entre dois mundos irreconciliáveis. O velho mundo rural e o novo mundo da metrópole.

Esta tensão também esta presente em Rastignac, personagem de O pai Goriot, de Balzac. No entanto, o exilado Rastignac persevera em suas lições, obliqua-se diante das grandes farsas do dinheiro e no fim, depois de anos de aprendizagem, enfrenta de frente a terrível cidade que é Paris: Agora é entre nós dois. Sussurra um transformado Rastignac, já configurado como o primeiro herói moderno, no dizer de Baudelaire.

Para Edward Said, o exílio deve ser visto pelo intelectual como metáfora a uma liberdade de pensamento e ação sem precedentes, o intelectual em situação de exílio, transcende o comodismo ideológico da academia do tapinha nas costas. Assumindo uma posição à margem, a visão autônoma seria o antídoto ao comodismo do pensador e artista:

“A condição de marginalidade, que pode parecer irresponsável e impertinente, nos liberta da obrigação de agir sempre com cautela, com medo de virar tudo de cabeça para baixo, preocupados em não inquietar os colegas, membros da mesma corporação.”[3]

Said, reflexões sobre o exilio

Said, reflexões sobre o exilio

A posição defendida por Said vai ao encontro de algumas das reflexões de Sartre. Sobretudo quanto a saída crítica do escritor dentro do contexto capitalista, para Sartre o escritor não se posiciona de modo crítico em relação à burguesia, pois está atrelado a ela. É em vão a análise se o Autor compactua com o conservadorismo burguês. Para a crítica é necessário o exílio, ou o afastar-se do objeto. Como o Autor não sabe, ou não quer este distanciamento, ele aprofunda-se em uma “solidão”, que cinicamente o impele a escrever “para ele mesmo”.[4]

As posições de Sartre tratam de um utilitarismo na arte que foge do assunto deste texto. O interessante a ressaltar é que as propostas tanto de Said quanto de Sartre se igualam diante do beco escuro do comodismo intelectual: o olhar à margem, o exílio.

O exílio posto como posicionamento intelectual não o isenta de certas responsabilidades, antes impõe um comportamento ético que desafia os mais engajados. Não há diante da premissa de exílio a liberdade irresponsável, e sim coerência de idéias e autonomia de espírito:

“Entretanto, penso que, para ser tão marginal e indomado como alguém que se encontra de fato no exílio, o intelectual deve ser receptivo ao viajante e não ao potentado, ao provisório e arriscado e não ao habitual, à inovação e à experiência e não ao status quo autoritariamente estabelecido. O intelectual que encarna a condição de exilado não responde à lógica do convencional, e sim ao risco da ousadia, à representação da mudança, ao movimento sem interrupção”.[5]

Como o anjo caído do antigo testamento, o exilado rompe com o que aparentemente é eterno e inquieta-se, questiona-se constantemente em seu privilegiado farol.

O exilado tem em vista o desacerto e a tentativa. O correr o risco é a base para a representação da realidade e a relativização histórica. O local privilegiado da periferia o põe em sintonia com outros elementos que o centro não poderia, e não quer dispor. Em alguns casos não há outro modo de agir a não ser a constante reorganização de idéias e o amargo fardo do pessimismo.

José de Alencar foi dos primeiros a exercer a visão de exilado – não sou um Europeu – muito bem poderia nos dizer ele, na concepção do romance no Brasil. As grandes questões do romantismo foram mastigadas por ele e reorganizadas – num resultado ainda tímido, deve-se ressaltar – mas de grande importância para autores que viriam, como Machado de Assis[6]. Alencar foi o primeiro artista da modernidade no Brasil, vítima e fomentador das grandes engrenagens que colaboraram no desenvolvimento do sistema literário brasileiro, teve consciência da necessidade de uma linguagem literária própria que desse conta das regulares produções intelectuais do período. Abraçou em sua obra territórios e crenças, criou mitos e testemunhos de uma nação ainda ingênua, com seus pequenos comerciantes e magistrados, onde o cabedal de doutor, forjado na maioria das vezes, deu o tom das desreguladas ambições nacionais.

Seu maior romance, Senhora (1875), é exemplo de romance que tenta, dentro das enormes contradições entre a nossa modernidade e aquela que lhe serviu de modelo, dar conta de certo desconforto de uma elite paternalista que se vê num acelerado processo de desagregação. A coisificação das relações sociais extrapola o provincianismo e exigiria de Alencar certa radicalidade de que ele não foi capaz, no entanto abriu um temário inédito no romance Brasileiro e possibilitou a exploração de outros temas para outro exilado. Machado de Assis.

exilio


[1] SCHWARZ, Roberto. “Nacional por subtração”. IN Que horas são? São Paulo, Companhia das letras, 2006. pp. 37

[2] O fenômeno moderno manifesta-se de diferentes formas em diferentes lugares. Há uma dinâmica que congrega todos os elementos de industrialização, êxodo rural e profunda modificação social que é inerente a todos, mas as diferentes condições culturais, sociais e políticas possibilitam a identificação de mais de uma “modernidade”. Cito Partha Chatterjee: “Muitos dos exemplos e explicações de Rajnarayan parecerão risíveis para nós. Mas não há nada de risível de seu projeto principal, que é provar que não pode haver apenas uma modernidade independente de geografia, tempo, meio ambiente ou condições sociais. As formas da modernidade terão de variar entre diferentes países, dependendo de circunstâncias específicas e de práticas sociais.” CHATTERJEE, Patha. Colonialismo, modernidade e política. Salvador, Fabrica de idéias, 2004. pp. 51.

[3] SAID, Edward W. Representações do Intelectual. São Paulo, Companhia das letras, 2005. pp. 70

[4] SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? São Paulo, Editora Ática, 2004. pp. 95.

[5] SAID, Edward W. Idem, Ibidem.

[6] Para Roberto Schwarz, A obra de Alencar é “uma das minas da literatura brasileira, até hoje, e embora não pareça, tem continuidades no Modernismo. De Iracema, alguma coisa veio até Macunaíma: as andanças que entrelaçam as aventuras, o corpo geográfico do país, a matéria mitológica, a toponímia índia e a História Branca.” A idéia de continuidade e acumulo na literatura brasileira vem sendo tratada de maneira convincente e bastante interessante em Antonio Candido e Roberto Schwarz. Veja-se em SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas.Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo,  Editora 34, 2000. e CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro, Editora Ouro sobre Azul, 2006.

SACRO E PROFANO – A representação carnavalizada de Deus e do Diabo – A paródia saramaguiana.

Postado em Uncategorized em 30/07/2009 por Rogério Fernandes

Nimium ne crede colori

A pintura de Ticiano “amor sacro e amor profano” (que mais tarde descobri num texto de Argan que se chama também “beleza ornada e beleza desadornada”) revela um sentimento que provavelmente todos nós leitores profícuos aprendemos a desenvolver instintivamente depois de horas desacordados na companhia de livros, fábulas, contos, poemas e música. Esse sentimento, tão bem desenvolvido por Proust, é o de uma imagem,cheiro ou som que remete a uma lembrança.  Ou de uma canção que remete a um desejo. No meu caso, o quadro de Ticiano me lançou às paginas de Saramago. Mais precisamente à idéia do duplo, proposto em muitos de seus livros. A contraposição conceitual e moral, no dizer de Argan, que contrapõem em imagens símiles a virtude e a volúpia, o negro e o branco, o rancor e o perdão.sacro-profano.orig

Há outra designação para o quadro de Ticiano que eu prefiro à “amor sacro e amor profano” por acrescentar um terceiro personagem ao titulo. Ela é dada por Ridolfi, historiador de arte veneziana ao tratar da pintura em 1648: “duas mulheres próximas a uma fonte, em que se espelha uma criança”.

Duas mulheres próximas a uma fonte; uma ornada de cetins e jóias, a outra nua, com os seios a mostra. O rico aparato de que dispõe a mulher vestida causa certo incômodo à idéia de sacralidade, a mulher nua, que deveria representar o profano, passa a transparecer leveza espiritual. A dualidade nos leva a um tema caro aos românticos do séc. XIX e aos pós-modernos do XX: a idéia do duplo. Das máscaras trocadas nos romances históricos de Dumas aos conflitos de identidade presentes em Kafka. O duplo assoma e seduz o imaginário literário.

A imagem da criança completa a metáfora que identifiquei na obra de Saramago. De imediato a associação me veio ao apreciar a obra de Ticiano. Deus, o Pastor e Jesus. A mulher vestida, a mulher nua e a criança . O evangelho segundo Jesus Cristo.

Recordemos a passagem em que Jesus encontra Deus pela segunda vez em busca de respostas. Vejamos como ele é descrito:

“Não é, como da primeira vez, uma nuvem, uma coluna de fumo, que hoje, estando assim o tempo, poderiam ter-se perdido e confundido no nevoeiro. É um homem grande e velho, de barbas fluviais espalhadas sobre o peito, a cabeça descoberta, cabelo solto, a cara larga e forte… Está vestido como um judeu rico, de túnica comprida, cor de magenta, um manto com mangas, azul, debruado de tecido de ouro…”

Vejamos agora, como o Diabo nos se revela no mesmo episódio:

“… Jesus julgou ver um porco com as orelhas esticadas fora da água, mas que após umas quantas braçadas mais, se viu ser um homem ou algo que de homem tinha todas as semelhanças… Este é o Diabo, de quem falávamos há pouco. Jesus olhou para um, olhou para outro, e viu que, tirando as barbas de Deus, eram como gêmeos, é certo que o Diabo parecia mais novo, menos enrugado, mas seria uma ilusão dos olhos ou um engano por ele induzido.”

Saramago descreve Deus como um judeu rico, pouco a ver com as representações míticas conhecida nos evangelhos.A paródia é clara. Saramago subverte a imagem canônica de Deus e a atualiza. Transportando criticamente a figura de Deus, Saramago opera uma “inversão do mundo sério e oficial, num clima de extrema vitalidade e de transformação”, como lembra Cândido Martins.

A paródia e carnavalização do conteúdo mítico se concentram não só em imagens, mas na subversão narrativa, onde o papel do leitor se estabelece ora como ponto de apoio da narrativa (há de se conhecer a mítica passagem de Jesus pela terra) ora como interlocutor irônico dos acontecimentos. Segundo o filósofo Paul Ricoeur, o conceito de apropriação de um texto por parte do leitor é o ato terminal do ato de compreensão em que o leitor faz o texto seu. Não é um ato de posse porque a compreensão já antes passou por uma fase de explicação, de objetivação em que o texto é confrontado com ele mesmo.

Voltemos a Deus, ao Diabo e a Jesus. A tríade esta completa. E o meu argumento começa a clarear-se. Criticamente o quadro de Ticiano representa um dos mais belos poemas do amor e da natureza representados pictoricamente. Argan chega a evocar Virgilio para descrevê-lo “… hic inter flumina nota/et fontis sacros frigus captabis opacum” . “Aqui entre rios conhecidos; e fontes sagradas, gozareis do frescor da sombra”. Virgilio. Bucólicas.Éclogas I,vv51-2.

Se Saramago subverte as escrituras, num processo de humanização não apenas de Jesus, mas sobretudo de Deus, proponho a subversão das imagens de Ticiano numa representação da tríade descrita no evangelho de Saramago. Onde podemos entender que as sombras não possuem mais frescor.E sim o acre dissabor de um texto de Schopenhauer.

A criança é levada ao mar para a sua ultima lição . A vontade do sacro e a submissão do profano. Se Deus e o Diabo são necessários como representações da psique humana, como tão bem nos lembra Freud, Saramago une a estas representações um simulacro do momento em que o grande pacto entre Deus e Jesus é sacramentado e o Jovem Jesus aceita o amargo cálice da imortalidade. Deus está à semelhança do homem. ”A insatisfação, meu filho, foi posta no coração dos homens pelo Deus que os criou, falo de mim, claro está, mas essa insatisfação, como tudo o mais que os fez à minha imagem e semelhança, fui eu busca-la aonde ela estava, ao meu próprio coração, e o tempo que desde então passou não a fez desvanecer, pelo contrário, posso dizer-te, até, que o mesmo tempo a tornou mais forte, mais urgente, mais exigente”.

O desejo e o tédio, sentimentos tão próprio aos homens, afloram à pele de Deus. Schopenhauer em seu livro “O mundo como vontade” estabelece um estado de espírito denominado como estado estético, onde a percepção do mundo estaria ligada a dois estágios na vida do homem. Na primeira o individuo se porta a serviço do querer, na segunda após sofrer toda a desgraça e sofrimento do mundo, adquire-se um ascetismo peculiar que o livra da dor de viver.Ora, o que Deus oferece a Jesus é um doloroso processo de depuração nas desgraças humanas para logo depois se alçar à condição do estado estético de Schopenhauer.

Neste processo de espelhamento da figura mítica. O Diabo adquire as formas de um anjo caído que pouco representa o Mal, e sim os desejos de um Deus caprichoso que como uma criança brinca de arrancar as asas dos insetos.

Após a narrativa das carnificinas, guerras, inquisições e outras desgraças, o Diabo propõe renunciar ao Mal de que é símbolo, contrariando assim os planos de Deus. Se eliminada a figura do Mal, não há porque morrer na cruz, não há porque inquisições e mortes. Ao fazer um Diabo piedoso , Saramago não só desconstrói a figura do mal, como também transforma as convicções do leitor. O encontro com o ambíguo torna a paródia parte de um estado critico que devolve ao objeto seus significados originais. Ao realçar o estranhamento, a arte devolve o mundo como um referencial dotado de sentido humano.

De novo a Ticiano e ao meu despertar; quando descobri o que tanto me incomodava naquela imagem: duas mulheres próximas a uma fonte. Deus e o Diabo. O judeu rico e o Pastor. Uma criança se espelha na fonte. Ao espelhar-se na fonte a criança encontra a ela mesma.

E nos encontramos todos.

Fun Home, tragicomédia literária.

Postado em Uncategorized em 29/07/2009 por Rogério Fernandes

Muito já foi dito sobre Fun Home, quadrinho autobiográfico de Alison Bechdel. Ganhador do prêmio Eisner de 2006, o albúm relata, entre milhares de outras coisas sutis da vida em familia, um ajuste de contas entre a autora e seu pai. As descobertas – e não descobertas – da sexualidade de ambos e o quanto foi decisivo o mundo entre os livros.Capa da versão americana de FUN HOME

Mas uma coisa que me chamou a atenção é o dominio da autora com autores e livros. Podemos ler Fun Home como um livro de crítica literária. A própria Alison explica o uso da literatura na história como uma maneira de compreender melhor a própria familia. “Faço uso dessas alusões a Henry James e Fitzgerald não só como recursos descritivos, mas porque meus pais são mais reais para mim em termos de ficção. E talvez meu distanciamento estético transmita melhor o clima ártico de minha familia do que qualquer comparação literária.”

Dificil imaginar em tempos de cavaleiros das trevas, uma autora com uma narrativa tão sofisticada. Aos poucos vou falando mais dela.

Alison num momento de autodescoberta

Alison num momento de autodescoberta

OCUPAÇÃO ZÉ CELSO EM SÃO PAULO

Postado em Uncategorized em 29/07/2009 por Rogério Fernandes

Mostra no Itaú Cultural reverencia o grande diretor Zé Celso. O nosso Dionísio.

A não perder.

Ocupação Zé Celso. Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149. Tel. (011) 2168-1776. 10 h/21 h (sáb. e dom. até 19 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 6/9. Abertura hoje, às 20 h, para convidados.

ze_celso

The Complete Love and Rockets Library: Vol. 1

Postado em Uncategorized em 23/07/2009 por Rogério Fernandes

Muitos anos atrás, numa galáxia distante (anos 90) começaram a publicar essa série. Mas…nunca mais. Quando veremos novamente em terras brasileiras??

Hopey e cia deixaram saudades...

Hopey e cia deixaram saudades...

Segunda feira fria e cheia de esperas…

Postado em Uncategorized em 17/11/2008 por Rogério Fernandes

Hoje eu não me sei bem. Tô buscando uma espera que parece não chegar. Coisa fria, esquisita. Fico calado sem sílabas na língua.

Nem sempre eu sou assim. Mas tem dias que só queremos o silêncio. Aquele silêncio acostumado com nós, sabe? Bem, por isso mesmo posto esta notinha. Vou pra Camburi!!! Praia e muita chuva. E aqui em Sampalândia uma mostra do Murnau…última gargalhada neles! Navetransitando no tristinho final da segunda.

Amanhã tem EPOG – Tentarei fazer cara de inteligente. Cousa que muito sono me dá.

Bons dias!!!6a00d834515d5969e200e54fa34f368834-640wi

duas mulheres

Postado em Uncategorized em 14/02/2008 por Rogério Fernandes

 cocaína ou rapé ?

- cocaína .

por debaixo de sua saia ?

- por entre as minhas narinas .

réquiem desencontrado em oração a faustino

Postado em Uncategorized em 14/02/2008 por Rogério Fernandes

 

 

devemos ser o que ele diz

devemos ter rosa e ousar e assim

dizer seu nome…

 

devemos ser seu nome de seda

num amplo desenho a lápis sem técnica

na mão livro do espaço

na reprodução de sua língua

 

devemos ser

e ele diz / e dizia /

“para mim basta o episodio de eva

rasgando o peito”

devemos ser / e eu disse /

Poemas velhos de guerra

Postado em Uncategorized em 11/02/2008 por Rogério Fernandes

Destesto poetas. Mas adoro escrever poesias. Este – talvez – paradoxo não tem receita dentro da minha cabeça. Lembro-me que um grande amigo meu sempre me irritou profundamente quando vinha com suas incontáveis teorias sobre estética e vanguarda. A vanguarda esta morta!!! É mais um gênero que uma atitude. E eu adorava ver os carros, as vitrines, o movimento da vida. Ouvia Chico, Caetano, bebia cerveja. E daí para a poesia não foi muito dificil. Hélas…

Segue então, como forma de desintoxicar os espaços, este primeiro poema de uma série que pretendo apresentar nesta casa. Foi feito para o amigo poeta que eu adoro. Apesar de eu odiar poetas. O que seria de mim sem as minhas obsessões??

maria

            para eduardo – poeta , vizinho , irmão –

máquina morta por entre a paisagem branca

distraídos os casais dançam entre os jacarandás

os azedumes da técnica agonizam no formulário

da critica

imensos esquecimentos grudam na vidraça do

                                                                       bonde

eternos minuanos calçam o pensamento

não há vagas entre os homens que cuidam

                                                           do portão

maria está sentada na calçada mastigando rosas

esperando tratores inaugurarem os cinemas .

onde havia igrejas se lançou luz na parede da

                                                                       sala .

maria espera o ônibus para ir ao centro da

                                                                       cidade .

maria esqueceu de reiniciar as flores do jardim

todas elas , as tulipas , os frutos , os anoiteceres

estão travados diante das luzes da manhã

espero copiosamente um homem diante da avenida

                                                                       do estado

máquina feita de coisas de veias negras e violetas

os casais , nauseados , ajoelham-se ao largo

nego o anoitecer de pulso mais barato

reinicio a festa ! pego da seiva dos livros

e adormeço ao seu lado , maria .

meu sono supera todos os sonos

ele instaura uma teia de sentidos

                                   que apaga

os desenhos de seu corpo \ saltam os dragões

                                               do corpo de maria \

saltam os golfinhos , as tenazes , os ideogramas ,

saltam as vísceras , os rins , o fígado , o coração ,

não há mais maria

dorme também maria , dorme e goza

os seus filhos estão sorrindo na caixa ao lado .

em minha casa desafio o cotidiano sem arestas

Postado em Uncategorized em 09/02/2008 por Rogério Fernandes